Por Helena Sardinha Pereira | Julho 2026
O Barreiro em Curtas nasceu dentro das escolas, mas o seu crescimento também se explica pela rede de parceiros que tem ajudado a transformar o projeto numa experiência formativa mais ampla. Entre eles está o Centro de Formação de Escolas dos Concelhos do Barreiro e Moita, dirigido por Alzira Nobre Mendes, que reconheceu desde cedo o potencial pedagógico da iniciativa e a sua capacidade de envolver professores e alunos em aprendizagens ligadas ao cinema, à criatividade, ao território e à cultura.
Nesta entrevista, Alzira Nobre Mendes reflete sobre a importância das oficinas acreditadas de Cinema Documental e Cinema de Animação, a valorização das aprendizagens realizadas fora dos formatos tradicionais de sala de aula e o papel da certificação dos alunos participantes. A conversa mostra como o cinema pode ser uma ferramenta de inovação pedagógica, capaz de desenvolver competências técnicas, digitais, artísticas, comunicacionais e colaborativas.
Ao longo das respostas, o Barreiro em Curtas surge como um projeto que aproxima escola, comunidade e território, ao mesmo tempo que oferece aos docentes novas possibilidades de trabalho interdisciplinar e aos alunos uma forma ativa de investigar, criar e contar histórias. Entre formação de professores, literacia audiovisual e participação cívica, fica uma reflexão sobre o lugar da arte na educação e sobre o contributo destes projetos para uma escola mais criativa, inclusiva e ligada ao concelho.
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O Centro de Formação Barreiro-Moita tem sido um parceiro fundamental do Barreiro em Curtas. Que razões levaram o Centro de Formação a associar-se a este projeto?
O Centro de Formação de Escolas dos Concelhos do Barreiro e Moita tem procurado, sempre que possível, apoiar iniciativas formativas que promovam a inovação pedagógica, a interdisciplinaridade e o desenvolvimento profissional dos docentes. O projeto “Barreiro em Curtas” reúne precisamente estas dimensões, associando educação, cultura, criatividade e território. Reconhecemos, desde o início, o enorme potencial pedagógico deste projeto e a sua capacidade para mobilizar professores e alunos em torno de aprendizagens significativas, contextualizadas e transformadoras. Associarmo-nos a este projeto, enquanto Centro de Formação, foi, por isso, uma decisão natural e plenamente alinhada com a missão do nosso Centro de formação.
De que forma enquadra o Barreiro em Curtas na missão do Centro de Formação enquanto entidade promotora da inovação pedagógica e do desenvolvimento profissional dos docentes?
A missão de um Centro de Formação não se esgota na oferta de ações de formação emanada da tutela. Cabe-nos também promover as experiências formativas inovadoras, de iniciativa de pessoas ou escolas associadas e que sejam capazes de transformar práticas e de responder aos desafios da escola atual e da educação de hoje. O “Barreiro em Curtas” constitui um excelente exemplo de inovação pedagógica, uma vez que promove metodologias ativas, trabalho colaborativo, interdisciplinaridade e aprendizagem baseada em projetos. Ao apoiar esta iniciativa, valorizando o projeto na sua dimensão formativa, estamos a contribuir para o desenvolvimento profissional dos docentes e para a construção de uma escola mais criativa, participativa e significativa.
O projeto integra oficinas acreditadas de Cinema Documental e Cinema de Animação. Qual a importância de proporcionar aos professores oportunidades de formação nestas áreas artísticas e audiovisuais?
Vivemos numa sociedade profundamente marcada pela imagem, pela comunicação audiovisual e pelas tecnologias digitais. A escola não pode ficar à margem desta realidade. Proporcionar aos docentes oportunidades de formação em áreas como o cinema documental e o cinema de animação significa dotá-los de novas ferramentas pedagógicas, permitindo-lhes explorar linguagens artísticas e audiovisuais capazes de enriquecer os processos de ensino e aprendizagem. Além disso, estas formações contribuem para desenvolver a criatividade, a capacidade crítica e a inovação metodológica. É minha convicção que a educação artística desempenha um papel crucial no desenvolvimento formativo do professor e na formação integral do aluno.
Que competências considera que os docentes desenvolvem através deste tipo de formação e que posteriormente podem transferir para a sua prática pedagógica?
Os docentes desenvolvem um conjunto muito diversificado de competências, desde competências técnicas e digitais até competências pedagógicas e relacionais. Destacaria particularmente a capacidade de trabalho colaborativo, a gestão de projetos, a utilização de metodologias ativas, a literacia mediática e audiovisual, a criatividade, a capacidade de comunicação e a reflexão crítica. Estas competências têm um impacto muito significativo na prática pedagógica, permitindo aos professores construir ambientes de aprendizagem mais motivadores, inclusivos e centrados nos alunos. E estes aspetos, por sua vez, vão favorecer o desenvolvimento integral do aluno mais rico.
A certificação dos alunos participantes constitui uma dimensão particularmente inovadora do projeto. Que significado atribui a este reconhecimento formal das aprendizagens realizadas fora dos contextos tradicionais de sala de aula?
A certificação dos alunos representa um reconhecimento muito importante das aprendizagens realizadas em contextos educativos não convencionais. Sabemos hoje que a aprendizagem ocorre em múltiplos espaços e através de diferentes experiências. Ao certificarmos as competências adquiridas pelos alunos no âmbito do “Barreiro em Curtas”, estamos a valorizar aprendizagens efetivas relacionadas com a criatividade, a comunicação, o trabalho em equipa, a resolução de problemas e a cidadania ativa, reconhecendo que estas competências são fundamentais para o desenvolvimento integral dos jovens.
Considera que esta certificação contribui para aumentar a motivação dos alunos e a valorização do trabalho que desenvolvem ao longo do projeto?
Sem dúvida. O reconhecimento formal das aprendizagens constitui um importante fator de motivação. Os alunos sentem que o trabalho realizado é valorizado, reconhecido e legitimado pela escola e pelas instituições parceiras. Esta valorização contribui para reforçar a autoestima, o sentido de responsabilidade e o compromisso com o projeto, promovendo simultaneamente uma maior consciência das competências que vão adquirindo ao longo do percurso.
O Barreiro em Curtas envolve processos de investigação, escrita, criação artística, trabalho colaborativo e contacto com o património local. Em que medida estas experiências contribuem para uma educação mais completa e significativa?
Estas experiências representam precisamente aquilo que entendemos hoje por educação integral. O conhecimento deixa de ser fragmentado e passa a ser construído através da experiência, da investigação, da criatividade e da colaboração. O contacto com o património local, a produção artística e o trabalho de projeto permitem aos alunos desenvolver competências cognitivas, sociais, emocionais e culturais de forma integrada. São experiências que promovem uma aprendizagem mais profunda, mais contextualizada e mais significativa com impactos mais consistentes.
O projeto tem vindo a crescer e prepara-se para abranger todos os ciclos de ensino. Como avalia esta evolução e que desafios e oportunidades ela poderá trazer?
Esta evolução demonstra a qualidade e a relevância pedagógica do projeto. A possibilidade de envolver todos os ciclos de ensino representa uma enorme oportunidade para consolidar percursos educativos articulados, permitindo que crianças e jovens desenvolvam progressivamente competências artísticas, comunicacionais e tecnológicas. Naturalmente, este crescimento traz também desafios organizacionais e pedagógicos, mas estou convicta de que a experiência acumulada e o forte compromisso dos promotores do projeto, assim como dos parceiros envolvidos, permitirão responder adequadamente a essas exigências.
Atualmente fala-se muito da necessidade de desenvolver competências criativas, digitais e comunicacionais. Que contributo pode o cinema oferecer para a concretização desses objetivos educativos?
O cinema constitui uma ferramenta pedagógica extraordinariamente poderosa porque integra, simultaneamente, criatividade, comunicação, tecnologia, pensamento crítico e trabalho colaborativo, premissas com as quais se entrelaçam vivências. A produção cinematográfica exige planeamento, investigação, resolução de problemas, domínio técnico, expressão artística e capacidade de trabalho em equipa. Ao trabalhar estas dimensões de forma integrada, o cinema contribui significativamente para o desenvolvimento das competências consideradas essenciais para os cidadãos do século XXI.
De que forma iniciativas como o Barreiro em Curtas podem reforçar a ligação entre escolas, comunidade e território?
Uma das maiores riquezas deste projeto reside precisamente na sua capacidade de aproximar a escola da comunidade e do território. Ao trabalhar histórias locais, património, memórias e identidades, os alunos desenvolvem um maior sentimento de pertença e de responsabilidade cívica. Simultaneamente, as escolas abrem-se à comunidade, estabelecendo parcerias e criando redes de colaboração que enriquecem os processos educativos e reforçam a coesão territorial.
Num momento em que o Barreiro procura afirmar-se cada vez mais como um concelho culturalmente dinâmico e se prepara para novos desafios na área da cultura, que papel podem desempenhar projetos educativos desta natureza?
Os projetos educativos e culturais desempenham um papel absolutamente estratégico no desenvolvimento dos territórios. Iniciativas como o ” Barreiro em Curtas” contribuem para afirmar uma identidade cultural forte, promovem a participação cívica, valorizam o património local e estimulam a criatividade e a inovação. Ao investir na educação artística e cultural das novas gerações, estamos simultaneamente a investir no futuro cultural, social e económico do concelho.
Que mensagem gostaria de deixar aos professores que participam nas oficinas de formação e aos alunos que se envolvem na criação das curtas-metragens?
Gostaria de agradecer, antes de mais, o entusiasmo, a dedicação e a coragem demonstrados por todos os professores e alunos que participam neste projeto. Aos docentes, deixaria uma palavra de incentivo para continuarem a experimentar, a inovar e a acreditar no enorme potencial transformador da educação. Aos alunos, diria que continuem a criar, a questionar, a imaginar e a contar as suas histórias, porque é através da criatividade, da colaboração e da participação ativa que construímos uma escola e uma sociedade mais humanas, mais inclusivas e mais ricas culturalmente. O “Barreiro em Curtas” demonstra, de forma exemplar, que a educação e a cultura são, efetivamente, duas faces da mesma realidade transformadora. E não posso deixar de dirigir uma palavra especial de apreço aos promotores deste projeto e em especial à Helena Pereira que é uma profissional excecional, sempre entusiasmada com o que faz, e com uma extraordinária capacidade de passar esse entusiasmo a outros …Parabéns a todos pelo trabalho realizado!

