Jorge Martinho: “Cada aluno é um arquivo vivo”

Por Helena Sardinha Pereira | Julho 2026

A Universidade Sénior do Barreiro ocupa um lugar essencial na relação entre memória, comunidade e participação cívica. No Barreiro em Curtas, essa ligação ganha forma através do encontro entre gerações: de um lado, jovens que aprendem a criar cinema; do outro, seniores que guardam histórias, vivências e testemunhos fundamentais para compreender a identidade do concelho.

Nesta entrevista, Jorge Martinho, técnico superior da Câmara Municipal do Barreiro, fala sobre o papel dos seniores enquanto depositários de património humano, a importância da história oral e o valor das curtas-metragens como forma de preservar memórias que atravessam a cidade, da CUF ao 25 de Abril, da indústria à reconversão do território.

Ao longo das respostas, a parceria entre a Universidade Sénior e o Barreiro em Curtas surge como uma ponte entre quem construiu a cidade e quem começa agora a contá-la através da imagem. Entre cinema, educação e cidadania, fica uma reflexão sobre escuta, pertença e transmissão de legado.

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Como caracteriza a missão da Universidade Sénior do Barreiro no contexto da comunidade local?

A Universidade Sénior é um pilar de inclusão e dinamismo cultural. A sua missão vai muito além da oferta pedagógica; é um espaço de combate ao isolamento, de promoção do envelhecimento ativo e, crucialmente, de valorização dos saberes que os nossos seniores trazem consigo, mantendo-os como cidadãos interventivos na vida do Barreiro.

Considera que os alunos da Universidade Sénior são depositários de um património de memórias e experiências único? Porquê?

Sim, inequivocamente. Cada aluno é um arquivo vivo. Eles não carregam apenas datas, mas a vivência quotidiana de um Barreiro que mudou drasticamente — desde a pujança industrial até à resiliência social. Essa perspetiva humana e direta é o que torna o seu património de memórias inestimável.

Que importância atribui à preservação das histórias de vida dos barreirenses para a construção da identidade coletiva do concelho?

É fundamental. A identidade de um concelho não se faz apenas de edifícios, mas das narrativas que os habitam. Preservar estas histórias é garantir que as futuras gerações compreendam as raízes, os valores e os desafios que moldaram o Barreiro atual.

Como surgiu a colaboração entre a Universidade Sénior do Barreiro e o projeto Barreiro em Curtas?

A colaboração surgiu da necessidade mútua: o Barreiro em Curtas procurava fontes autênticas e memórias reais, e a Universidade Sénior procurava palcos significativos para que os seus alunos pudessem partilhar o que viveram, promovendo um intercâmbio de saberes geracional.

O que o motivou a associar-se a esta iniciativa educativa e cultural?

A convicção de que a educação não tem idade e que o cinema é a ferramenta mais poderosa para “imortalizar” a palavra dita. Unir a experiência de vida dos seniores ao olhar fresco e técnico dos jovens criadores é uma sinergia inigualável.

De que forma os alunos da Universidade Sénior têm participado nas diferentes edições do projeto?

Têm participado como fontes primárias de informação, como protagonistas de documentários, e, por vezes, como colaboradores na escrita de guiões, partilhando o “olhar” sobre o passado que a lente dos jovens procura captar.

Como avalia a disponibilidade dos seniores para partilhar as suas memórias com os jovens?

A disponibilidade é notável e, muitas vezes, entusiástica. Existe um desejo genuíno de serem ouvidos e a perceção de que, ao contarem as suas histórias, estão a entregar um legado a quem continuará a construir a cidade.

O Barreiro em Curtas coloca frequentemente jovens entrevistadores frente a frente com seniores que viveram momentos marcantes da história local. Que significado tem este diálogo intergeracional?

Este diálogo é uma ponte fundamental entre gerações. Ao sentarem-se frente a frente, quebramos preconceitos: o jovem deixa de ser o ‘desconhecedor’ e o sénior deixa de ser o ‘esquecido’. Tornam-se parceiros de descoberta mútua, onde o jovem aprende com a experiência de vida e o sénior sente que a sua história tem, novamente, um lugar e um futuro no Barreiro.

Que reações tem observado nos alunos da Universidade Sénior quando são convidados a contar as suas histórias?

Observo uma mistura de orgulho, nostalgia e, por vezes, surpresa pelo interesse dos jovens. Muitos sentem que o que viveram ganha, finalmente, um novo valor ao ser registado em filme.

E nos jovens, que impacto acredita que estas conversas produzem?

Impacta-os ao humanizar a história. Deixam de ver apenas os livros e passam a ver pessoas que sofreram, trabalharam e sonharam no mesmo chão que eles pisam hoje. Cria empatia e respeito pela ancestralidade.

Considera que este contacto contribui para combater estereótipos associados ao envelhecimento? De que forma?

Sem dúvida. Ao verem os seniores como figuras vibrantes, com vivências profundas e capacidade crítica, os jovens desconstroem a ideia errada de que o envelhecimento é sinónimo de irrelevância.

Muitas das curtas produzidas pelos alunos têm por base testemunhos recolhidos junto dos seniores. O que representa para si ver essas memórias transformadas em filmes?

Representa a transmutação da memória efémera em património visual. É ver a história oral sair da sala de aula e entrar no espaço público através do cinema.

Na sua opinião, que tipo de conhecimento os testemunhos orais oferecem que dificilmente encontramos nos livros ou nos arquivos?

O conhecimento da emoção e da subjetividade. Os arquivos dão-nos os factos, mas os testemunhos dão-nos o “cheiro da fábrica”, o medo durante as greves, a alegria das festas populares. É o lado humano da História.

Há alguma história ou testemunho partilhado pelos seniores que o tenha marcado particularmente?

Sem dúvida. O testemunho do nosso aluno José Amaro é um daqueles que me deixou sem palavras, pela dimensão histórica e humana que carrega. O José partilhou comigo a sua experiência vivida por volta de 2017, quando foi um dos engenheiros responsáveis pelos cálculos críticos para o novo sarcófago de Chernobyl.

O que mais me marca, além da complexidade técnica de ter trabalhado na elaboração de centenas de cablagens para aquela estrutura monumental, é o lado humano: o facto de ter vivido durante dois anos em Slavutich, convivendo diariamente com os antigos moradores de Pripyat. Ouvir o relato de alguém que assistiu, na primeira linha, à limpeza do cimento do reator 4 e que, através do seu trabalho de engenharia, ajudou a encerrar um dos capítulos mais dramáticos da história contemporânea, é algo profundamente transformador. É a prova viva de que, na nossa Universidade Sénior, não temos apenas alunos, temos protagonistas de histórias globais que muitas vezes desconhecemos.

Considera que estas curtas contribuem para preservar memórias que, de outra forma, poderiam perder-se?

Sim, são uma ferramenta de salvaguarda. A oralidade é frágil; o cinema transforma-a numa memória duradoura.

Os alunos da Universidade Sénior viveram transformações profundas no Barreiro: o período da CUF, o crescimento industrial, o 25 de Abril, a reconversão industrial. Que valor têm estas experiências para os mais jovens?

Têm o valor de um mapa de orientação. Ajuda os jovens a entenderem por que o Barreiro é como é hoje e a reconhecerem a importância da luta e do trabalho na construção da cidade.

Que aspetos da história e da identidade do Barreiro considera mais importante transmitir às novas gerações?

A capacidade de reinvenção. O Barreiro industrial que se soube transformar e a resiliência das suas gentes.

Através desta parceria, sente que os seniores se tornam também protagonistas da história do concelho?

Absolutamente. Deixam de ser espectadores da história contada por terceiros para passarem a ser os próprios narradores da sua vivência.

Que contributo pode esta parceria dar para a valorização da história local e da cidadania?

Reforça o sentido de pertença. Quando conhecemos a história do lugar onde vivemos, somos cidadãos mais atentos, mais exigentes e mais apaixonados pelo nosso território.

Como imagina a evolução desta colaboração entre a Universidade Sénior do Barreiro e o Barreiro em Curtas nos próximos anos?

Imagino uma maior digitalização destas memórias, criando uma videoteca de história oral acessível a todos, onde o diálogo constante se torne uma prática recorrente e não apenas pontual.

Gostaria de deixar uma mensagem aos jovens participantes do projeto?

Continuem a ser os guardiões da memória. O vosso olhar curioso é a melhor ferramenta para garantir que a história do Barreiro não se perca no tempo. Sejam pacientes, sejam curiosos e, acima de tudo, sejam bons ouvintes.

E uma mensagem aos seniores que continuam a partilhar generosamente as suas memórias e experiências de vida?

Obrigado por serem a nossa bússola. A vossa generosidade em partilhar o vosso passado é um presente inestimável para o futuro do nosso concelho. Não parem de contar as vossas histórias. A participação da Universidade Sénior no Barreiro em Curtas é o elo que transforma a memória vivida em legado visual, garantindo que a alma da nossa cidade continue a ser escrita por quem a construiu e lida por quem a irá herdar.

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