Augusto Cabrita: “A arte deve ser antónima da anestesia”

Por Helena Sardinha Pereira | Julho 2026

O Barreiro em Curtas cruza cinema, educação e território a partir do olhar dos jovens, mas ganha outra espessura quando aproxima os alunos de pessoas que pensam a imagem para lá da técnica. Entre os membros do júri desta edição esteve Augusto Cabrita, investigador da obra do avô, o fotógrafo e realizador barreirense Augusto Cabrita, uma das figuras centrais da cultura visual portuguesa.

A sua ligação ao projeto nasceu do contacto com a comunidade escolar no contexto da exposição dos 100 anos de Augusto Cabrita, onde apresentou aos alunos outras formas de ver e pensar o cinema. Nesta entrevista, fala sobre o legado familiar, a força da curta-metragem, os critérios que valoriza enquanto jurado e a importância de estimular a criatividade dentro da escola.

Para Augusto Cabrita, o festival afirma-se como um laboratório experimental, capaz de abrir espaço à observação, à sensibilidade e ao pensamento crítico. Entre a memória do cinema de autor, a defesa da arte como experiência humana e o apelo aos jovens para olharem primeiro para a imagem, fica uma conversa sobre cinema, educação e liberdade criativa.

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Para começar, como é que surgiu o seu envolvimento com o “Barreiro em Curtas” e o que o motivou a integrar o júri?

Houve um generoso convite por parte da professora Helena Pereira, criadora e timoneira deste projeto que apreciou a forma como interagi com a comunidade estudantil no quadro da exposição dos 100 anos de Augusto Cabrita. O facto de ter contribuído para que vários alunos do município conhecessem as curtas metragens do autor e explicado formas alternativas de se olhar e pensar o cinema foi, acredito, determinante.

Sendo neto de uma figura marcante da fotografia e do cinema português, de que forma esse legado influenciou o seu olhar sobre a imagem e a criação audiovisual?

Influenciou-me imenso. Em primeiro lugar, no cinema, os filmes do meu avô contribuíram para que eu olhasse para o cinema de autor com grande fascínio. Estamos a falar de curtas metragens filmadas a solo, sem assistência técnica, a 16mm. Eram ensaios de poesia visual. Porque é que o cinema com guião, de atores, a longa metragem, tem de valer mais do que uma curta-metragem que nos assole os sentidos? Foi essa a pergunta que me foi surgindo depois dessa experiência de consumo. O fascínio do meu avô por essa modalidade fez-me igualmente ir atrás de nomes como Stan Brakhage, Man Ray, Maya Deren entre outros que preferiram sempre as curtas metragens, os ensaios visuais a longos e dispendiosos filmes, que muitas vezes obedeciam a desígnios externos de produtores e da indústria cinematográfica. Quem faz curtas metragens, pode mais depressa entregar-se ao ensaio, à experimentação, à liberdade.

O que distingue, na sua perspetiva, o “Barreiro em Curtas” de outros projetos semelhantes dedicados ao cinema jovem?

Para ser franco, não sou conhecedor de outros festivais de cinema para jovens. Não obstante, a dedicação, a estima pela causa e o virtuosismo que os dinamizadores deste projeto — tanto a professora Helena Pereira como os formadores Mário Ventura e Sara Naves — colocaram nesta última edição elevaram o festival a um patamar de excelência. Como espectador, senti que todos os processos foram muito bem conduzidos, com grande naturalidade, pelas pessoas certas.

Enquanto membro do júri, que critérios valoriza mais na avaliação das curtas-metragens realizadas pelos alunos?

É claro que em cinema tem de haver bases que sustentem a qualidade de um filme. A forma como os planos são trabalhados, a sua relação sequencial, o som, tudo isso é matricial. No entanto, defendo que para um objeto se elevar a um patamar de excelência, tem de haver algo de inusitado, que se afaste do que adivinhamos como previsível, que exceda uma zona de segurança estético-formal. Sinto essa necessidade em todos os domínios artísticos. No cinema, na literatura, na música.

Fascina-me o que me desloca.

Como todos os observadores, acredito. A grande diferença está nos limites apreciativos de cada um, nos intervalos estéticos, na tolerância a determinados registos. Até onde pode ir um autor?

Para mim, a arte deve ser antónima da anestesia.

O projeto envolve jovens que estão a dar os primeiros passos no cinema. O que mais o surpreende no trabalho que é apresentado?

Como em todos os concursos, haverá sempre trabalhos que se distinguirão face a outros. Em particular, surpreendeu-me a sensibilidade, o rigor e a finesse que alguns alunos conseguiram imprimir em alguns dos seus projetos fílmicos. Houve coisas extraordinárias que me comoveram. No geral, surpreendeu-me a sensibilidade dos alunos para com o território onde residem, a cidade do Barreiro.

Que importância atribui ao facto de os alunos trabalharem não só o cinema, mas também a escrita, a música e outras linguagens artísticas?

É essencial! Numa era de vertiginosa automação funcional, impulsionada pela IA, a arte será cada vez mais um retiro sagrado da experiência humana. Quando se escreve um poema, se faz uma música e até quando fazemos cinema, o que nos guia e nos fascina, acredito, é um certo mistério de imprevisibilidade. Fascina-nos o processo, o desconhecimento do resultado final, guiado pelo nosso cérebro e universo sensível. Ora, a IA é o oposto disso. Para mim, a arte deve manter-se totalmente à margem da automação algorítmica. Caso contrário, estaremos a trair o génio e a especificidade da própria espécie. O amor e a arte são para mim o que mais há de humano.

Na sua opinião, de que forma este tipo de iniciativas pode influenciar o percurso futuro destes jovens, mesmo que não sigam carreira artística?

Lembro-me que em adolescente quase não tive oportunidade de colocar em prática a minha criatividade no contexto escolar. Em particular no secundário. Ora, no Barreiro em Curtas é exatamente o contrário. O festival funciona como um laboratório experimental. Mesmo que os alunos acabem por não prosseguir o caminho das artes, já houve um estímulo germinal. A partir daí a aposta está ganha.

Enquanto observador atento, nota alguma identidade própria ou “marca do Barreiro” nas obras apresentadas?

Para ser honesto, não propriamente. As curtas metragens apresentadas mostraram a diversidade de temáticas que podem estar associadas ao Barreiro.

Que papel considera que o júri deve desempenhar para além da avaliação, nomeadamente no incentivo e orientação dos jovens criadores?

Junto dos alunos, aquando da comunicação dos resultados finais, o júri deve quanto a mim retirar peso ao resultado final. A avaliação nem sempre é unânime. Ao mesmo tempo, ninguém garante que um aluno ou grupo de alunos que não ficaram nos primeiros lugares não possam daqui a um ano realizar um grande filme. O que conta é o processo, a curiosidade que surge para se continuar a pensar e realizar cinema.

Que mensagem gostaria de deixar aos alunos que estão agora a dar os primeiros passos no “Barreiro em Curtas”?

Bem sei que todos os filmes têm de estar associados a uma temática. Ainda assim, em primeiro lugar diria a cada grupo para pensar o potencial da imagem. Para se submeter a exercícios de observação e de relação sensível com o mundo antes de pensar numa temática. O que posso fazer com uma câmara? Que cenários e processos de edição poderiam ajudar-me a contar uma estória? Antes de ser uma estória, o cinema é primeiramente um conjunto de imagens e o desejo de as filmar. Não se esqueçam disso.

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