Barreiro em Curtas distingue filmes vencedores da segunda edição

A segunda edição do Festival Barreiro em Curtas voltou a mostrar a cidade através do olhar dos alunos. Escolas, ruas, jardins, antigas fábricas, clubes, coretos, margens de rio e espaços de memória deram origem a curtas metragens documentais e de animação, criadas ao longo de um percurso formativo dedicado à linguagem cinematográfica, à pesquisa, à escrita, à imagem, ao som e à montagem.

A sessão de entrega de prémios decorreu a 2 de junho, no Auditório Municipal Augusto Cabrita, com a presença de quase 400 alunos e professores. Nesta edição, o projeto recebeu 27 filmes inscritos, dos quais 14 foram exibidos na sessão final, divididos entre cinema documental e cinema de animação.

Organizado pelo Cine Clube do Barreiro e pelo Agrupamento de Escolas de Casquilhos, em articulação com os agrupamentos de escolas do concelho, a Universidade Sénior do Barreiro e o Plano Nacional de Cinema, o Barreiro em Curtas desafia os alunos a transformar memórias, vivências e lugares do concelho em obras audiovisuais originais.

A coordenação e produção estiveram a cargo de Helena Pereira e Mário Ventura. A formação em cinema documental foi orientada por Mário Ventura, diretor do Cine Clube do Barreiro, e a formação em animação por Sara Naves.

A professora Helena Sardinha disse emocionada que “A maior alegria deste projeto é ouvir dos alunos que passaram neste palco que não são mais as mesmas pessoas e não olham para o cinema ou para a cidade da mesma forma. É por isso que vamos continuar”.

Para Mário Ventura, o valor do projeto está na forma como aproxima os jovens do território. Mais do que apresentar lugares conhecidos, o Barreiro em Curtas convida os alunos a observar a cidade a partir de novas perspetivas, em contacto direto com as suas gentes, o património material e imaterial e as histórias que atravessam a identidade barreirense.

Vencedores na categoria de cinema documental

O primeiro prémio de cinema documental foi atribuído a “1947”, realizado por Ana Mourata, Misiane Fernandes e Sara Bernardino, da Escola Secundária Alfredo da Silva, com orientação do professor Diogo Rosa.

A curta parte da história da própria escola para revisitar a memória industrial do Barreiro. Situada no coração de uma cidade profundamente marcada pela CUF e pelo desenvolvimento industrial, a Escola Secundária Alfredo da Silva surge no filme como lugar de aprendizagem, transformação e permanência. Através de testemunhos de um arquiteto e urbanista e de um antigo aluno e professor, “1947” aproxima diferentes gerações e mostra como um espaço escolar pode guardar parte essencial da história de uma cidade.

O segundo prémio documental foi entregue a “Aguarelas”, de Flor de Oliveira, Larissa do Céu e Maria Beatriz, da Escola Secundária Augusto Cabrita, com orientação da professora Ana Bento.

A curta aborda a diversidade no espaço escolar a partir da metáfora da aguarela. A escola surge como uma tela composta por cores, histórias, culturas e identidades distintas. O filme trabalha temas como preconceitos, estereótipos, convivência e crescimento coletivo, valorizando a diferença como parte da experiência comum dos alunos.

Na categoria documental, foram ainda atribuídas menções honrosas a “Esperança que não finda”“O sol sempre aparece” e “O Corpo e a Corrente”. Os filmes distinguem diferentes dimensões da memória e da vida no Barreiro, passando pelo legado do Futebol Clube Barreirense, pela história de vida de Maria de Lurdes Almeida e pela ligação ao rio através da prática de stand up paddle.

Estreia da categoria de cinema de animação

A segunda edição do Barreiro em Curtas marcou também a estreia da categoria de cinema de animação.

O primeiro prémio foi atribuído a “Número Zero do Barreiro”, de Inês Gomes, Carlos Jorge e Leonor Sardinha, da Escola Secundária de Casquilhos, com orientação do professor Carlos Jorge.

A curta regressa a uma época em que o setor industrial ocupava um lugar central na vida de muitos barreirenses e acompanha uma criança fascinada pelos bombeiros e pelo futebol. A história estabelece uma ponte entre o antigo quartel dos bombeiros e a sua transformação num espaço ligado à criação artística, revelando como os edifícios mudam de função, mas continuam a guardar marcas da comunidade que lhes deu vida.

O segundo prémio de animação foi entregue a “O Som da Memória”, de Arielly Prado, Carolina Pires, Diana Bordalo, Marina Rocha e Micael Marques, da Escola Secundária Manuel Cargaleiro, no Seixal, com orientação da professora Matilde Pinto.

Inspirada no coreto do Jardim dos Franceses, a curta dá vida a um espaço com mais de 100 anos de história. A animação recupera, através da música e do movimento, a memória de um lugar associado a encontros, festas populares e vida comunitária. O coreto volta a ser palco, ainda que no universo poético criado pelos alunos, num filme que trabalha o património a partir da imaginação e da sensibilidade visual.

Para Sara Naves, formadora da vertente de animação, os trabalhos apresentados revelam maturidade, empenho e imaginação, demonstrando o potencial artístico e cultural dos alunos envolvidos no projeto.

Júri destacou a qualidade dos trabalhos

O júri da segunda edição do Barreiro em Curtas foi composto por Elsa Mendes, coordenadora do Plano Nacional de Cinema e presidente do júri, Rui Pires, realizador e montador distinguido no DocLisboa 2024, e Augusto Cabrita, mestre em Ciências da Comunicação e investigador da obra do fotógrafo e cineasta barreirense Augusto Cabrita.

Elsa Mendes sublinhou o crescimento do festival e a qualidade dos filmes apresentados, destacando a existência de uma visão estratégica e de um conceito claro para o desenvolvimento do projeto. A presidente do júri realçou ainda o impacto de ver centenas de jovens concentrados perante o grande ecrã, numa sessão que aproximou os alunos de uma verdadeira experiência cinematográfica.

Rui Pires, que tinha acompanhado a primeira edição como espectador, destacou a evolução qualitativa dos filmes e a forma como os alunos começaram a dominar elementos essenciais da linguagem cinematográfica. Para o realizador e montador, vários trabalhos revelaram uma maturidade surpreendente para alunos do ensino secundário, muitos deles em contacto inicial com a criação audiovisual.

Um projeto educativo e cultural em crescimento

O Barreiro em Curtas nasceu com a missão de aproximar os jovens do cinema, da cidade e da memória coletiva. Através da criação de curtas metragens, os alunos são convidados a observar o território, recolher histórias, escutar testemunhos, trabalhar em equipa e transformar pesquisa em narrativa audiovisual.

Nesta segunda edição, o programa reuniu histórias sobre a Escola Secundária Alfredo da Silva, a diversidade na escola, o antigo quartel dos bombeiros, o coreto do Jardim dos Franceses, Alburrica, os moinhos de vento e de maré, o Barreiro Velho, a CUF, os caminhos de ferro, a arte urbana, o graffiti, o hip hop, o desporto, o rio e figuras ligadas à cidade.

Para Helena Pereira, uma das organizadoras, o projeto deve continuar a consolidar e alargar o seu impacto educativo e cultural, com a ambição de chegar a todos os ciclos de ensino, do 1.º ciclo ao 12.º ano, reforçando a rede de colaboração entre escolas, professores, municípios e jovens criadores.

A segunda edição do Barreiro em Curtas contou com financiamento do ICA, Instituto do Cinema e do Audiovisual, da Fundação Amélia de Mello, do Município do Barreiro e do Rotary Club do Barreiro.

A apresentação pública dos filmes realiza se a 5 de junho, às 18 horas, na Casa da Cidadania Cabós Gonçalves, numa sessão aberta à comunidade. O encontro permitirá ao público conhecer as curtas criadas pelos alunos e ver o Barreiro devolvido em imagens, sons e histórias por uma nova geração de jovens realizadores. “Outras apresentações públicas vão ocorrer nos próximos meses em diferentes locais do Barreiro. Estamos a organizar as datas destes eventos”, explica Helena Sardinha.

Filmes premiados e menções honrosas

1.º prémio Documental

1947
Realização
Ana Mourata, Misiane Fernandes e Sara Bernardino

Escola
Escola Secundária Alfredo da Silva, Barreiro

Orientação
Professor Diogo Rosa

Sinopse
Situada no coração do Barreiro industrial, a Escola Alfredo da Silva nasceu da necessidade de formar as gerações que impulsionaram a industrialização da cidade. O documentário faz uma viagem desde a sua fundação até aos dias de hoje, explorando a forma como o edifício e o ensino se cruzaram com a história da CUF. Através do testemunho de um arquiteto e urbanista e de um antigo aluno e professor, a curta revisita corredores marcados pela aprendizagem, resistência, inovação e mudança, revelando o papel da escola na identidade do Barreiro.


2.º prémio Documental

Aguarelas
Realização
Flor de Oliveira, Larissa do Céu e Maria Beatriz

Escola
Escola Secundária Augusto Cabrita, Barreiro

Orientação
Professora Ana Bento

Sinopse
Uma escola é apresentada como uma tela cheia de cor, onde cada aluno representa uma pincelada viva e única. A curta trabalha a diversidade de culturas, histórias e identidades, criando uma aguarela composta por diferentes tonalidades. O filme aborda preconceitos, estereótipos e convivência, defendendo um espaço onde as diferenças se possam misturar, crescer e manter a sua essência perante realidades distintas.


1.º prémio Animação

Número Zero do Barreiro
Realização
Inês Gomes, Carlos Jorge e Leonor Sardinha

Escola
Escola Secundária de Casquilhos, Barreiro

Orientação
Professor Carlos Jorge

Sinopse
Numa época em que o setor industrial ainda dava trabalho a muitos barreirenses, os bombeiros e o futebol moviam as paixões dos mais jovens. A curta acompanha um episódio da vida de uma criança fascinada pelos soldados da paz, ligando essa memória às antigas instalações dos bombeiros, entretanto transformadas num dos principais núcleos artísticos do Barreiro.


2.º prémio Animação

O Som da Memória
Realização
Arielly Prado, Carolina Pires, Diana Bordalo, Marina Rocha e Micael Marques

Escola
Escola Secundária Manuel Cargaleiro, Seixal

Orientação
Professora Matilde Pinto

Sinopse
O coreto do Jardim dos Franceses, construído há mais de 100 anos, surge como um lugar solitário, rodeado por árvores e pelo caminho que conduz os habitantes até ele. À meia noite, a melodia de uma banda esquecida volta a atravessar o jardim e convida outras almas da sua época a dançar. A animação recupera a memória de um espaço ligado à música, à festa e à vida comunitária.


Menção honrosa Documental

Esperança que não finda
Realização
Caetano Machado, Mateus Nascimento e Rafael Medina

Escola
Escola Secundária de Casquilhos, Barreiro

Orientação
Professora Helena Pereira

Sinopse
Entre ruas marcadas pelo tempo e bancadas carregadas de histórias, a curta retrata o legado do Futebol Clube Barreirense. O filme apresenta o clube como uma mensagem para as gerações futuras, mostrando como o passado pode moldar o presente e influenciar o futuro. A narrativa valoriza a ligação afetiva ao Barreirense e à memória coletiva da cidade.


Menção honrosa Documental

O sol sempre aparece
Realização
Antónia Segundo, Leonel Coentro, Raíssa Indjai e Rafaela Almeida

Escola
Escola Secundária de Santo André, Barreiro

Orientação
Professora Fátima Correia

Sinopse
Maria de Lurdes Almeida tinha 18 anos quando se casou e deixou para trás os pais, a quinta e a vida que conhecia para construir uma nova história no Barreiro. A curta acompanha a adaptação a uma terra desconhecida, as dificuldades enfrentadas e a forma como aquele lugar se tornou casa. É uma história de superação, resiliência e esperança.


Menção honrosa Documental

O Corpo e a Corrente
Realização
Matilde Libório

Escola
Escola Secundária de Casquilhos, Barreiro

Orientação
Professora Helena Pereira

Sinopse
Ao nascer do dia, a curta acompanha a rotina de um atleta e treinador de stand up paddle, entre a disciplina do treino, a pressão da competição e a paixão pelo desporto. O filme revela também o lado humano da canoa havaiana, marcado pelo espírito de equipa, pela entreajuda, pela inclusão e pela ligação ao rio, ao mar e à comunidade.

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